17/12/2009

Navegar é preciso, viver não é preciso


Desde que cheguei em Portugal já sofri alguns “abalos”, muitos sentidos pela condição de ser uma estrangeira, outros apenas por ser humana, com todas as potencialidades e limitações que isto implica. Vivi este ano muito intensamente (e não passou rápido para mim), foi vivido dia a dia, acreditando que ser “aprendiz” vale a pena, pois a alma não é pequena. Senti muitos abalos positivos, que fizeram-me crescer e tornar-me uma pessoa mais forte e confiante. Mas nenhum até agora tinha sido “sísmico”.
Quando os acontecimentos mostram-nos a fragilidade da vida, percebemos que não temos muito controle sobre a nossa passagem por este mundo. Na madrugada de quarta para quinta-feira, quase 2 da manhã, estávamos no quarto a assistir um filme na TV e a jogar conversa fora. Sem mais nem menos a cama tremeu...!? Olhei para o meu marido...ele olhou para mim (eu com uma cara de quem estava a ver algo do tipo Poltergeist). Digo prontamente: – O que é isto, a cama está a tremer, tu estás a tremer? Ele com a sua grande experiência em tremores (já uns 5) logo disse-me: – Você não está a balançar o corpo, não?
Era certamente um tremor de terra. Levantamos logo, corremos para a nossa janela com uma vista para o Rio Tejo. É claro que podíamos logo ver se estava vindo um Tsunami, mas tudo parecia normalíssimo: os casarios iluminados, o céu nublado típico do inverno…também não vimos rachaduras pelo chão. Mudamos de canal na esperança de ver algo em algum telejornal, mas nada. Tínhamos a certeza que pela manhã veríamos algo na internet. Fiquei assustada obviamente, mas adormeci. O meu marido disse-me: – Bem-vinda ao “luso-shake” (batida portuguesa).
De Norte a Sul do país, houve portugueses que não sentiram o abalo, mas muitos dos que perceberam admitem de que se tratou de uma experiência assustadora. Um amigo relatou que ouviu o tilintar dos copos e o sacolejar dos pratos; outra disse-me que viu a cortina movimentar-se e a cama mexer-se, pensou até que fosse um espírito. A imprensa relata que o abalo foi classificado como o maior registado desde 1969 em Portugal, de magnitude 6.0.
Então, reafirmo que “Navegar é preciso, viver não é preciso” - frase de Pompeu, general romano, dita aos marinheiros amendrontados, que recusavam-se a viajar durante a guerra (cf. Plutarco, no livro Vida de Pompeu). Verso reproduzido por Fernando Pessoa, mas identificado por nós, brasileiros, na voz do compositor Caetano Veloso que, por sua vez, utilizou-o na música Os Argonautas, atendendo à sugestão de sua irmã Maria Bethânia.
Navegar é preciso” – toda gente compreende esta frase, afinal “eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá” parafraseando Chico Buarque. Talvez possa haver alguma dificuldade no verso: “Viver não é preciso” – que não corresponde ao sentido de “precisar”,“necessitar”, mas sim de “precisão”. A vida é vivida sem precisão, sem nenhum controle de fato. Cada dia é uma dádiva, uma vitória, um milagre (como para alguns o nascimento de Jesus Cristo).
O abalo é de ordem sísmica – é a natureza a relembrar-nos a fulgacidade e a beleza desta vida que temos a grata oportunidade de gozar. E se toda gente parasse e pensasse nisto, não em Copenhage, mas em todo o mundo? Ainda termino com um verso que descobri, tal Caetano, por causa de minha amada irmã: “- Por isso eu deixo em aberto o meu saldo de sentimentos,
sabendo que só o tempo que ensina a gente a viver" - Paulinho da Viola.
Ilustrando o post: Bem emocionada ao encontrar Caetano Veloso na Casa Fernando Pessoa. Lembrei de bons momentos, muitos fraternos, vividos ao som de Caetano Veloso. Aliás, acho que o Caetano é bem melhor a cantar, pois ao falar em público se perde nos seus argumentos.
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