15/12/2016

O ato de parir vol. II



     Gestar uma dissertação é como gestar um filho. Ao final da gestão não dormimos mais, não comemos direito, apenas aguardamos ansiosos pelo momento único de ver o rosto, sentir o cheiro, viver o encontro... ver o filho, o texto pronto. Dar a luz “à criatura”, seja ela qual for. Gestar dói e demanda ansiedade. Dissertar ideias, conceitos, raciocínios exigem uma expansão da consciência, algo difícil de descrever. Perceber novas ideias, resenhar discursos esquecidos, ler, reler, refazer conceitos, estabelecer objetivos, hipóteses. A mente cresce, expande-se. Você se sente pronto para vivenciar novos processos, compreender outras hermenêuticas de sentido.
     Gestar um texto exige muitos processos de leitura, escrita e reescrita. Ir e retornar constantemente, até o ponto de sentir dificuldades de olhar para o que já foi escrito... Sentir até um certo medo em ter de rever o texto mais uma vez, mas é preciso passar por isso. É a lei do eterno retorno em processo.É a revisão, são as normas da ABNT, é o livro, o capítulo, o ano. Mas, além de todas as citações, referencial teórico, é preciso dissertar por algo que nos instigue.
     Gestar é sorrir em meio à dor. Sentir as contrações de alguém que quer vir ao mundo e vai nascer. A gente sabe que o nosso inquilino tem prazo para vir ao mundo. E o prazo vai chegando. E você sente angústia, medo, dor, muita ansiedade envolvida... mas, no fundo, sabe que vai conseguir.
      Dissertar é contextualizar, citar e dizer. Criar, sobretudo. Gestar é sentir na pele, no corpo, na respiração, a fome, o sono, a azia, a pressão... dia e noite.  Existe uma vida bela e sublime acontecendo, dentro da gente. É preciso dizer o que nos propomos com maior comprometimento com o nosso ser-aí. Sabemos que nada será como antes.  Depois do nascimento nossa vida mudará para sempre. 
      Parir uma vida demanda dor, sofrimento, ritual milenar... prazer e dor em estar viva.  Parir uma dissertação também. Já estou a ouvir: " - Está quase chegando! - Respira, respira..."

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